setembro 30, 2007

An End Has A Start

Editors, Editors...

Um miadinho domingueiro

Como não tenho a força do meu amigo Redneck para soltar um rugido dominical, fico mesmo no meu miadinho de domingo à noite. Na verdade, estou trabalhando e essa é uma pausa para relaxar. E me divertir com as bobagens que estão rolando pelo mundo. Como a declaração do George Michael que quer fumar menos maconha. Eu fico pensando o que será menos? Ninguém está satisfeito mesmo. E a bicharada no Reino Unido que está com a língua azul. Animais, mesmo, tá. Com essa doença da língua azul o dente também deve ficar azul, não? Daí teremos vacas e bois com bluetooth? E fico sabendo do tiroteio no shopping Interlagos, que pânico, para onde você corre uma hora dessas? Já está dentro da caixa, não tem muita saída. Os tentáculos da loucura estão cada vez maiores, quando você menos espera eles chegam, sorrateiramente, do seu lado, na sua frente, nas suas costas. Benza Deus. Mas voltemos às bobagens domingueiras, como um café da tarde prolongado em que ninguém sai da mesa e as conversas se esticam. Sandy e Júnior em turnê de despedida? Eu não precisava disso, vocês precisavam? E as filmagens de Blindness em Sampa?Algumas pessoas acompanharam. Agora à tarde eu vi o pesadíssimo Freedomland, com a Juliane Moore, muito boa, e o Samuel L.Jackson, sempre ótimo. E nas fotos das filmagens do centro de São Paulo, ela está com a mesma cara atormentada do filme. Agora, um pouco de mulherzice, como diz a Fabi. O que é aquele Mark Rufallo de barba? E eu perdi de ver isso de perto. Tudo bem, nem queria mesmo. E não adianta forçar, não vou falar de política nem nada sério hoje. Bom, vou voltar para as minhas matérias e arrumar minha mala. Parto amanhã para Floripa e só volto na sexta. Até lá vai ser bem difícil alimentar esse Tamagoshi aqui, então fiquem em paz. Me aguardem.

setembro 28, 2007

Uma bela e despudorada exposição de vísceras

Um dia desses dei uma passada pelo Todo Prosa , do Ricardo Soares, e me deparei com o que ele chamou de uma despudorada exposição pública de vísceras. Uma crônica em forma de poesia, ou uma poesia em forma de crônica, que me emocionou muito. Com todo talento que tem para as palavras falou por ele, por mim, e, provavelmente, por você. Com a autorização dele, reproduzo aqui. Sintam.

Tenho saudades do meu pai e tenho saudades da minha mãe
e saudades de outro tempo onde eu não tinha saudades
tenho saudades do tempo onde eu acordava e via o meu filho
pequeno
e saudades de por a cabeça no sereno quando o tempo escorria
de outro jeito

tenho saudades da vasta amplidão do meu peito
onde cabiam mais amigos e menos desafetos
tenho saudades das crônicas antigas,
das minhas infantis dores de barriga
de um tempo onde eu enxergava meu futuro
sob uma parreira de uva

tenho saudades de um tempo onde eu não me envergonhava
como agora
de dividir essas lembranças com vocês
tenho saudades de velhos noticiários do rádio,
das mãos que seguravam as de meu pai
do vai e vem dos amores da infância
do jeito romântico que eu sonhava com a palavra
da minha inquietação juvenil que no fundo me tocava
fazendo a poesia mesmo ruim ter o vigor da ereção
da propulsão
a quentura do fogo, a força da lava

tenho saudades de não ter vergonha de rimar
de um tempo nem tão antigo
onde eu vi o homem tocar o solo lunar
com o meu pai bem aqui nesse lugar
onde hoje só estão as suas lembranças

tenho saudade do tempo da escrita rude
do fundo pedregoso da represa
de peixes espinhudos que peguei
da jaboticaba madura que provei
do incêndio que , estúpido, não apaguei

também tenho saudades dos sonhos,
daqueles amarelos que na porta da escola eu comia
e me lambuzava
e de outros mais remotos que eu sonhava
tenho saudades do pão quente
do pão presente que então se fazia
e de um futuro que a mim apetecia
onde eu seria tudo de grande
no limite da minha fantasia

o tempo da imagem enfim vingou
o que era doce nem mais doce ficou
e o futuro se pra mim não acabou
futuro, enfim , não se tornou

meu pai foi embora
minha mãe está longe
e eis-me na trincheira aqui sozinho
sem ser martir
sem ser sequer um coitadinho
mas ciente do tamanho que possuo

odeio por fim o pragmatismo
esse rumo tomado, anti-romantismo
onde tecer a palavra é fazer mau jornalismo
onde as regras se soprepõe aos fatos
onde os pratos sujos não são lavados
entre os intervalos das refeições
pois come-se muito

come-se Deus
come-se a boa palavra
come-se a lógica
come-se a ética
a métrica, todos os dedos
come-se o bem, a delicadeza
a mais sensata forma de beleza

come-se a árvore
e deixa-se o cimento do pátio

então, ali no átrio eu grito :
ONDE ESTOU ?PRA ONDE VOU ?

qual o dilema aristotélico que tem
no coração de todo aflito ?

R.S.

Green Day - Wake Me Up When September Ends (Live)

Me acorda?

setembro 27, 2007

Borboleteando

Estou com vontade de borboletear, se bem que não sei exatamente o que isso significa. Deve ser a leveza que cairia bem. Ou o movimento, mas nem sei a distância que ela consegue percorrer. Talvez a certeza do bom resultado após as dores da transformação. E a sempre bela combinação de design e cores. Talvez a fé. Sim, as borboletas têm fé. Voam em busca do que é bonito, sabem que vão encontrar o que vale pena. Mas qual é a visão delas? Pode não ser nada disso e há riscos, como o de terminar esmagada debaixo da pata de um cavalo ou esfarelar em um quadro de vidro na casa de um colecionador. Mesmo assim, continuo querendo borboletear.

"Even Flow, thoughs arrive like butterflies"

E dá-lhe Cazé

Não sei se é reprise da temporada antiga, se é novidade. Mas assisti esta semana uma entrevista da Marília Gabriela com a Regina Cazé, muito boa. Não sei se gosto dela o tempo todo, mas nesse dia ela mandou muito bem. Ela se define como uma cronista e é mesmo, mostrando Brasis fora do eixo Projac-Berrini. Isso sem contar o Pé de que? que é uma super sacada no canal Futura. Mas o que mais gostei foi quando a Marília perguntou se ela não tinha medo de gravar em lugares perigosos, como favelas e tal. Ela primeiro disse que não acredita que 90% da população que mora em uma favela seja ligada ao crime. Mas são tão marginalizadas quanto. São mulheres e homens que saem para trabalhar de manhã, precisam chegar no horário sob pena de serem repreendidos ou até perderem seus empregos, e para isso atravessam áreas de grande perigo todos os dias. Com a coragem e determinação que precisam para sobreviver. E é em nome dessas pessoas que ela se recusa a ter medo. Bem colocado. Valeu.

Adoro céus bíblicos

Hoje encerro sem música, só com a imagem. É momento de meditação. A foto é do André Pipa, um viajante de clicks muito sensíveis.

setembro 26, 2007

Isto não é para você - XIX

(previously leia em Por uma Second Life menos ordinária)

Marcelo nem tirou o roupão para dormir, assim que saiu do banho ele se deitou, completamente exausto. Horas depois, pulou, assustado, e se sentou na cama assim que percebeu uma mão nos seus cabelos.
-- Helena? O que você está fazendo aqui?
-- Eu moro aqui, lembra?
-- Mas você não voltaria só amanhã? Você me assustou. Aconteceu algo?
-- Tive saudades do meu marido e achei que esse era um bom motivo para voltar.
Helena mantinha o sorriso e a voz mansa deixando-o sem ação. Ele imaginava se ela sabia que tinha passado a noite com Olívia, se havia algo que o estava denunciando. Mas, aparentemente doce, ela estava impenetrável. Eles ficaram abraçados por um tempo, quietos, como se estivessem decidindo quais as rotas que utilizariam. Por um tempo, preferiram a das amenidades, falando sobre o congresso em Liverpool, sobre os amigos em comuns que estavam lá e outras bobagens. Até que Helena, cuidadosamente, foi ao ponto.
-- Você sabia que a Olívia está em Londres? Tentei tanto falar com ela mas não consegui. Será que ela está bem?
O papel da boa irmã não convencia Marcelo. Mas ele ainda não sabia o quanto ganharia em desmascará-la.
--Ela está de passagem por aqui. Estive com ela ontem, me pareceu bem.
Helena respirou fundo, não poderia deixar brechas para que ele lhe contasse algo indesejável.
-- Que bom. Parece que ela está se mudando para Dubai, não? Que loucura, mas é a cara dela. Nós poderíamos almoçar juntos amanhã, o que você acha?
Marcelo sentia seu pé próximo da armadilha. Mais um pouco diria toda a verdade. Vontade não faltava. Mas ele não queria magoar Helena, ainda mais com a gravidez.
-- Não sei se é uma boa idéia, ela parece que tem um monte de coisas para fazer por aqui antes de embarcar.
-- Não custa consultá-la, não acha?
Ela foi em direção ao criado-mudo e pegou o celular de Marcelo.
-- Você tem o número dela aqui? Eu só tenho no celular e a bateria acabou.
Ela não deu tempo para ele responder. Sabia que ele tinha o número gravado na memória. Da mesma forma que tinha certeza que aquele número ela atenderia.
-- Não é uma boa hora. Estou colocando uma amiga bêbada na minha cama.
Helena olhou para Marcelo com um sorriso quase cínico.
-- Você continua a mesma. Sempre com um porre por perto, não?
Olívia gelou quando ouviu a voz. Depois de ter presenciado um surto de sua amiga Nicole, a última coisa que ela queria era falar com sua irmã. E ainda mais com ela fazendo questão de mostrar seu território ao ligar do celular do marido. Só não tinha idéia de quais terrenos, exatamente, Helena sabia que tinham sido invadidos na noite anterior.

Leia o próximo em Mimeógrafo Digital

Quando é o homem que abre a boca..

Gente, vocês viram o que dá um homem falar mais do que a boca? O tal do Tyler Nelson, que contou, indevidamente, sobre as filmagens do novo Indiana Jones parece que tem seus dias contados no filme. O Spielberg teve um piti e deve tirar o cara do filme mesmo e o próprio agente do linguarudo teme que ele não tenha mais espaço na indústria cinematográfica. Meu Deus. E de nada deve adiantar o currículo do cara, que estudou balé clássico no Bolshoi, fala russo e tudo mais. O papel dele no filme era de um soldado soviético que capturaria o Indiana e ainda com direito a uma dança de balalaika na selva amazônica. Parece que a tagarelice é bem mais tolerada nas mulheres, quase como se contra isso não houvesse mesmo o que fazer. Mas nos homens ela é severamente punida. Ainda mais para quem assina contrato de confidencialidade, ou algo parecido, como parece ser o caso. Bem, falou, dançou, literalmente. Mas essa é só uma observação, não conheço o cara nem estou lamentando, tipo o cinema vai perder muito. Se as previsões estiverem certas, acho que nem saberemos.

Read My Mind - The Killers

Não leia a minha nesse momento, baby...

A dura vida na faixa de Gaza

Na semana passada, eu fui assistir a peça "Os homens são de Marte e é para lá que eu vou", com a Mônica Martelli. Muito boa, você ri quase o tempo todo. O texto flui bem, ela é ótima, o figurino é tuuuudo -- um único vestido que vai se metamorfoseando para atender as várias situações e sempre com um ótimo caimento --, enfim, um ótimo divertimento. Não gostei muito do final, tipo uma mensagem de como a persistência e a fé podem ajudar você a atingir seu objetivo. Se bem que acho que autora, a própria Mônica, tentou passar, sem muito sucesso, um lado mais de que você precisa assumir o comando de suas escolhas e não agir como se precisasse chamar a atenção em uma prateleira. A peça trata da busca desesperada de uma mulher, Fernanda, de 35 anos, que já deveria estar vivendo uma crise no casamento mas ainda está solteira. O que me chamou a atenção no teatro foi de que as mulheres riam, mas um pouco mais constrangidas, enquanto os homens gargalhavam. Também, o problema não era deles, eram só o alvo. Mas tem uma outra coisa que também ficou para mim, o papo de que as mulheres casadas não têm só bônus na renovação do seguro do carro mas padecem também muito porque vivem em uma faixa de Gaza, com um monte de solteira pipocando do lado. O pior é que é a mais pura verdade. Hoje fui ao aniversário de uma amiga e pude ver como nós, mulheres, estamos no geral cada vez mais histéricas. E quando estão buscando uma noite interessante, um parceiro, um casamento, ou qualquer encrenca, a energia parece que salta da pele, derrubando tudo, até garçons. E as poucas que estavam acompanhadas precisavam aumentar seus esforços para manter o foco do parceiro, quase como uma performance da deusa indiana Shiva, com vários braços e pernas para segurar tudo que é possível. É assustador. Meu Deus, muita calma nessa hora. E pensar positivo porque se nada der certo, como mais uma vez é dito na peça, "não era para ser". E dá-lhe florais.

setembro 25, 2007

Um pouco de poesia

Cheguei em casa agora há pouco e vi que acabou de chegar o livro de poesia que meu amigo C.J.Krueger me enviou. Eu já falei aqui sobre o livro, chama-se My feelings. Ele vive no estado de Washington, perto de Seattle, e é um caminhoneiro-poeta. Vou publicar aqui uma das poesias, sem tradução porque não tenho as manhas.

My Ending

Alone now without much, kind of whitered
Once what I was unique, now doesn´t thrive.
Of the past, we were this constant solid energetics force, now drained.
But how, why could it be our ending?
I did wish for you till my end
This is my ending.

setembro 23, 2007

Isto não é para você -- XVII

(previously, leia Isto não é para você - XVI em Mimeografo Digital )
Olívia não contava com as férias e o grande número de turistas em Convent Garden. Decidiram se encontrar em um pequeno pub que ficava em uma travessa da Leicester Square. Ela foi caminhando até lá, um momento propício para tentar absorver todas as informações das últimas horas. O olhar de Marcelo lhe contando da gravidez de Helena lembrava Lennon, o vira-lata que foi o único cachorro que ela conseguiu ter na vida. Ainda na casa da Pompéia, onde ainda imaginava que por mais conflitos que houvesse ,um dia todos ririam daquilo em um Natal qualquer, como uma família feliz faria. Os olhos de Marcelo pediam clemência, como se desculpasse por aquele esperma mais esperto que fecundou sua irmã. Como se fizesse diferença.
A caminhada foi boa para Olívia entender que nem tudo poderia ser contado para Nicole. Ela era a típica californiana que só se perturbava se faltasse o baseado de quase todos os dias. Linda, loira, olhos azuis e cobiçada, só tinha de se preocupar em administrar o cara do momento. E ele já durava há algum tempo e foi por conta de Eduardo que Nicole viveu em tantos lugares, com a última parada em Londres, onde elas se conheceram. Olívia não queria nem pensar o que poderia ser o seu namorado em Dubai, já classificado por ela tantas vezes como alguém livre demais nesse mundo. Se Nicole dizia isso sobre ele, o que poderia imaginar? Não era nada com que ela quisesse se identificar naquele momento. "Pela hóstia, como diria Antônio', pensou.
Dubai começou a se apresentar mais para ela. Em dois dias desembarcaria lá para assumir um cargo de gerentezinha qualquer dentro de um organograma enorme do Grand Hiatt. Ela não tinha muito que reclamar, a política do hotel de incentivar seu corpo de gerentes a trocar de cidade, pelo menos a cada dois anos, tinha lhe proporcionado rodar um tanto. Ate seu periodo mais barra pesada, quando precisou de um tempo para se tratar, foi resolvido com um simples afastamento nao remunerado. Em Dubai era diferente, talvez porque poucos aceitassem. As condições financeiras eram melhores, o prazo era só de um ano, e ainda poderia morar na ala residencial, dentro do próprio hotel, regalia que não existia nos demais lugares por onde passou. A ânsia, ou ganância, de crescer naquela estrutura mais uma vez a remetia a Helena que seguiu seus passos no mundo da hotelaria. Ela queria ser a melhor, pelo menos nisso.
Nicole estava diferente, mais monocromática do que Olívia se lembrava. E mais madura. Tinha planos, o que quase a chocou. Mas, pensou, o mundo real poderia se apresentar a todos, como aconteceu com ela. Nicole pouco perguntou como ela estava, mas vibrava só de imaginar que em um mês as duas estariam juntas, novamente, em uma cidade nova e desconhecida.
__ Eduardo está adorando, a grana é muito boa e em menos de dois anos já teremos condições de ter alguma coisa nossa, talvez em San Diego.
Ele trabalhava no club do Dubai Marine Beach Resort, mas morava próximo ao Grand Hiatt, o que as tornava quase vizinhas, dizia Nicole. Ela tinha acabado de voltar de lá, para fechar o apartamento em Londres e ainda estabelecer alguns contatos que talvez a ajudassem a trabalhar em Dubai como webdesign.
__ Está tudo acontecendo lá. Você vai adorar.
Olívia tinha dúvidas do quanto poderia gostar, só sabia que já era um caminho sem volta. E não se convencia nem com o entusiasmo da amiga. Também não tinha certeza de que pessoa desiludida podia ter se transformado.
(Leia o proximo em Por Uma Second Life menos Ordinaria)

U2 - Electrical Storm

Já que não chove, vamos às tempestades elétricas para começar a semana. E com Larry Mullen Jr, precisamos de algo mais?

Cidade limpa, mas sem memória?

Já fui correntista do Itaú, mas não sou mais há muitos anos. Não morro de adoração pelo banco, mas a última lembrança que tenho dele, enquanto instituição financeira, é boa. Depois de ter ficado 13 horas na fila do Pão de Açúcar para comprar o ingresso do primeiro dia do show do U2 eu não peguei fila no banco para pagar pelo ingresso do segundo dia. Melhor dos mundos para quem ainda tinha o bronzeado da muvuca do seu Diniz. Mas o luminoso da Paulista é outra história. Eu lembro quando ainda morava no interior, vinha visitar a família em Sampa e via o relógio. Não o relacionava a banco, lucros exorbitantes, atendimento discutível, nada disso. Era um outro tipo de referência, como continou sendo mesmo depois que eu morava aqui. Era algo como "respira fundo, você está em casa". Muitas vezes, mas muitas, odiei ver o relógio. Claro, me lembrava que estava atrasada para algum compromisso ou então que já deveria estar em casa há muito tempo. Agora, como o relógio será mantido? Ainda não entendi a conta do final do mês. Acho que esse marco tinha também uma função de GPS, como a torre em cima da Gazeta. Coisas subliminares nas nossas vidas, na nossa memória. Coisas como quando o avião está chegando na cidade, você olha para baixo e precisa de identificações para não se perder naquele mundo de prédios e avenidas. Você precisa saber que está chegando em casa. Apesar de ter um HD lotado, onde as lembranças que ficam são cada vez mais seletivas, descubro que tinha guardado essa imagem do Itaú e das horas. Não gosto da sensação de que minhas memórias estão sendo apagadas. Quem gosta?

O universo toma conta...

Morei 10 anos na Martiniano de Carvalho. Eu me lembro do primeiro Natal que passei lá, 10 dias depois de ter dado à luz a minha filha, um presente divino que ganhei sem saber se merecia. Mas aquele Natal eu estava em plena crise de depressão pós-parto. Com um bebê nas mãos e sem a mínima idéia se eu daria conta do recado eu só tinha dúvidas e inseguranças. Cambaleando aqui, tropeçando ali, acho que consegui. Vivi dias muito felizes naquele apartamento, mas também enfrentei momentos muito duros. Todos nós. Nem sei, exatamente, porque mudei dali. Agora, passado tanto tempo, descubro que tive um vizinho durante dois anos que, atualmente, é uma pessoa muito querida. A foto da placa foi tirada por ele, que foi conferir o lugar para ter certeza de que vivemos tão próximos e sem saber da existência um do outro. Era o mesmo lugar. Ele, o Redneck, escreveu um post contando toda a história. Provavelmente nos cruzamos várias vezes no elevador, no hall, ele deve ter ficado puto com as festas barulhentas de aniversário de minha filha, enfim, tinha tudo para nos amarmos ou odiarmos, como todos vizinhos. Mas ficamos indiferentes. Há sete anos nos conhecemos e só agora descobrimos essa proximidade. Eu tenho uma lista enorme de coincidências na minha vida, sempre com pessoas bacanérrimas, porque das malas esqueco logo. Porisso sempre gostei de dizer que o universo toma conta, isso muito antes de O Segredo aparecer e bombar em vendas de livros e DVD. Mas continuo acreditando nisso, acho que há vários tipos de energias que se procuram, não há limites físicos ou coisas que possam ser explicadas. Simplesmente acontecem. É a tal da sincronicidade que hoje usamos tanto para atualizar todos nossos apetrechos eletrônicos. Isso é só uma reprodução do que já acontece com a gente, seres humanos. É isso. Que bom, não Redneck?

setembro 22, 2007

Primavera, primavera....

Oficialmente, a primavera começa amanhã às 6h51. Em algum lugar deverá ter gente acordada nessa hora para fazer uma dança de saudação, algo assim. E tomara que todas as boas energias sejam passadas para a nova estação, porque estamos falando de primavera em tempos de aquecimento global. Todas as previsões indicam que o tempo será mais quente e mais seco que os outros anos. O Climatempo estima que as temperaturas ficarão, pelo menos, dois graus acima da média histórica. E a previsão do Inpe é de que a estiagem se prolongue até o final de outubro. Não aguento mais, quero chuvas..E a previsão de Patty Diphusa é de que é tempo de fervo. Aproveitem.

setembro 21, 2007

The Rolling Stones - Wild Horses (Rio de Janeiro - 2006)

E viva o mundo selvagem...

Isto não é para você - XIV

(previsouly, leia Isto não é para você - XIII em Mimeógrafo Digital )

-- Porra !
A garconete apenas deu um olhar indiferente, como se estivesse acostumada a ouvir expressões tão particulares de seus clientes que não valeria a pena saber do que se tratava. Mas Eduardo precisava daquilo. Ele precisava ofender em português, suspirar em português, amar em português. Há quanto tempo não falava seu próprio idioma. Ele estava se amaldiçoando por estar naquela falsidade do saguão do Concorde, que procurava simular o glamour dos grandes hotéis europeus, como se pudesse lhes tirar o DNA por insistência.
A mulher da mesa ao lado tentava ser discreta em suas insinuações mas as tantas vezes que jogou seu cabelo de um lado para o outro eram reveladoras. Eduardo aprendeu com o tempo que exercia um certo fascínio mas não acreditava ser possível que algo de interessante pudesse surgir dessas situações. Mas também tinha consciência do quanto ele mudou nos últimos anos, com as camisetas de bandas de rock sendo substituídas por modelos de grifes alternativas, os cabelos que permaneceram na linha dos ombros, nunca menos que isso, mas muito melhor tratados, a barba quase sempre por fazer, mas nunca desalinhadas. Apesar da estatura média, seus olhos azuis sobre a pela morena faziam com que se destacasse. Mas tudo isso era superficial para ele, exceto o fato de que, agora, tinha sucumbido a tudo que havia renegado nos últimos anos, decidir algo pelo dinheiro e não pelo prazer do que fazia.
Eduardo sabia que era preciso ir embora. Andarilho, já tinha passado temporadas em vários lugares do mundo, mas nunca tinha sentido que estivesse tão longe das coisas que apreciava. Isso sem falar de suas raízes, cada vez mais enterradas em espaço desconhecido. Aquele lugar o oprimia, era como se existisse uma grande barreira, de difícil travessia, que o impedisse de ver o outro lado. E a cada momento que se lembrava de onde gostaria de estar, podia visualizar esse muro marcando bem a distância.
Paul demorava a chegar. Ele tinha sido o grande responsável por convencer Eduardo a assumir o cargo de DJ principal de uma das maiores casas noturnas de Dubai. Aliás, ele sempre esteve presente em todos os momentos de viradas na vida dele, incentivando-o, propondo-lhe novos caminhos. Era como se fosse um bote salva-vidas à mão quando precisasse.
Eduardo ainda não tinha conversado com ninguém sobre sua vontade de largar tudo. Muito menos com Nicole. Ela estava estranha, cada dia mais diferente daquela companheira de tantas aventuras. E não era algo tão distante assim,a alegria com que os dois pegavam ondas em Maui, a chegada ao Atacama, as tardes sonolentas em Trancoso, a transa no final da tarde em Kapari. Tantas lembranças que o prendiam, irremediavelmente, a ela.
Eduardo sabia também que não havia muito o que reclamar. Com 32 anos recém completados, já tinha conquistado muito mais do que tinha imaginado. Só não ficou rico, mas esse nem era seu plano. Quando deixou São Paulo, sabia que sua alegria estaria em duas coisas, na música e na possibilidade de viver ao sabor do vento. O que não esperava era que elas se conjugassem e pudesse armazenar em algum lugar o que precisava para, logo em seguida, desfrutar em outro. Era um nômade.
Agora, se sentia preso a uma armadilha. Estava em uma cidade em permanente construção enquanto sentia falta de percorrer caminhos conhecidos, reconhecidos e saboreados. Não seria ele um piloto de testes para ser seguido por uma série de imitações bem feitas e compradas. Mas Nicole dava mostras de que estava muito bem adaptada, que seria bom acumular, ter patrimônios , vínculos. Quando a conheceu, em San Diego, Eduardo tinha certeza de que ela jamais seguiria o padrão de sua família. Mas, agora, tinha dúvidas. Mesmo com a certeza de que viveria ao lado dela até o fim, seja lá qual fosse o fim, não conseguia reunir coragem suficiente para confessar a sua insatisfação com o que ela começava a considerar um mundo perfeito.

Leia o próximo em Por uma Second Life menos ordinária

setembro 19, 2007

Isto não é para você - X

(previously, leia Isto não é para você - IX )
-- Londres? Olívia está em Londres?
O celular quase caiu de mão de Helena como se tivesse lhe dado um choque. Ela mal percebeu que havia elevado sua voz e muito menos os olhares trocados entre os que tomavam café no saguão do hotel.
-- Antônio, desde quando ela está lá?
Não precisou muito mais tempo para que Helena entendesse a falta de mensagens, a caixa postal do celular...a areia movediça. Ela procurou encerrar a conversa rapidamente com o irmão, já não havia muito que ela ainda quisesse saber...Dubai, mudança, novo trabalho? Tudo isso soava muito desinteressante. Ela não queria saber os planos do futuro de Olívia, só queria saber com quem ela estava agora.
"Não faça nenhuma bobagem". O que Antônio queria dizer com isso? A especialidade dele parecia ser a de usar cada vez menos palavras para irritá-la. Em pouco tempo, com um simples oi ela pularia no pescoço dele. Helena se deu conta de que ele sempre falou com ela como se a estivesse alertando de que algum tipo de demônio estava pousando na sua cabeça. E sempre a provocou a favor de Olívia, claro. Ela sabia que tinha perdido a afeição do irmão em algum momento e nunca mais a recuperaria. Nem o fato de saber que ela era a sua única e verdadeira irmã mudou a situação. Isso ela dificilmente perdoaria.
Marcelo não atendia nem o telefone de casa e muito menos o celular. Helena ligou para Richard, um colega de trabalho dele que de vez em quando o apanhava nos sábados à tarde para ir ao pub que ficava a duas quadras de onde moravam. Não, ele não sabia muita coisa, a não ser que Marcelo havia saído mais cedo no dia anterior. Richard se preocupou e estava disposto a ir até ao prédio deles. Helena achou que não era o caso, iria esperar mais um pouco.
Aliás, esperar tornou-se a sua grande virtude, pensou. Para obter afeto ela sempre precisou se esforçar mais que os outros, trilhar várias rotas alternativas e até estabelecer algum tipo de negociação. Mas não havia o que lamentar, ela sabia disso. A máscara que foi obrigada a usar serviu muito bem para conquistar tudo que desejou. Uma carreira, sucesso, uma situação financeira relativamente tranquila e, claro, Marcelo. E ela não abriria mão de nada disso.

Leia a continuação em Mimeógrafo Digital.