
Não eram nem seis e meia e Maria Amélia já estava em casa. Ela achou que dava tempo de mexer nas suas plantas antes de tomar um banho para ir ao aniversário da prima Maria Ângela. Uma hora depois tinha se arrependido até o último fio de cabelo. E o telefone ainda toca. Na corrida para atender, esbarrou em um vaso na murada que caiu sem dó nem piedade do 9º andar onde morava. “Xiiii, acho que atingiu aquele cacto horrível que a síndica colocou no pátio”. Telefone, banho, uma nova olhada no pátio, várias pessoas, conversas altas. “Ai, está tendo churrasco, melhor deixar para depois”.
Na saída da garagem ninguém na portaria para comentar do vaso. Estranho. Na volta, como o churrasco rendeu, pensou. Deu até polícia. Alguns vizinhos na rua, gentilmente, apontavam seu carro para que os policiais dessem passagem. O sargento Gomes lhe disse que tinha uma ordem para apurar “indícios” no seu apartamento. Como assim? Aos poucos, ela descobre que seu vaso atingiu fatalmente um morador do sétimo andar que estava no pátio. Maria Amélia se desespera, leva os policiais ao seu apartamento, repete exaustivamente o que aconteceu mas, no meio da madrugada, começa a duvidar que eles estivessem prestando atenção. Foi para a delegacia, deu depoimento e, na saída, três fotógrafos a esperavam. Foi assim que começou a saga de Maria Amélia que, para a imprensa, começou a ser chamada de assassina da samambaia.
-- Como assim, Heitor, eu tinha um caso com a vítima? Eu mal o conhecia.
Heitor, primo, amigo, irmão, camarada.
-- É a suposição do delegado e a imprensa parece que vai apostar. O zelador disse que vira e mexe via, pelo circuito interno, vocês conversando no elevador.
-- Isso foi uma ou duas vezes e falamos do aumento exagerado do condomínio.
-- Bom, como a mulher dele está grávida já concluíram que você se enfureceu quando soube e jogou o vaso de samambaia nele.
-- Avenca, Heitor, avenca.
-- Whatever, querida. A questão é que a coisa está ficando feia.
-- Eles imaginam que eu fiz de propósito? E, mesmo que fosse, que tenho essa pontaria?
-- Olha, Amelinha, melhor acionar o dr Salomão logo. E fica longe do noticiário.
Novos depoimentos foram pedidos, ela voltou mais três vezes à delegacia e, na saída, o número de fotógrafos aumentava.
-- Maria Amélia,que enrosco você arranjou dessa vez?
-- Mãe, eu só estava mexendo nas plantas.
-- Minha filha, você nunca gostou de samambaia.
-- Era avenca, mãe, avenca.
-- Ai, daquela muda que a tia Matilda te deu com tanto gosto?
O telefone não parava de tocar, imprensa, amigos, parentes. Ela não sabia mais o que fazer.
-- Eles estão pensando em te indiciar.
-- Me indiciar, dr. Salomão? Eles estão loucos, foi um acidente. Como poderia ser algo premeditado eu tentar acertar um vaso do nono andar na cabeça de alguém?
--É, mas o promotor disse que se houve a intenção a lei é clara mesmo que a probabilidade de acerto seja pequena. E o depoimento da vizinha de baixo foi horrível para a gente, ela diz que havia muito barulho no seu apartamento à noite, que era bem provável que você recebesse visita. Eu ainda aleguei que os vídeos do prédio não mostravam ninguém subindo para seu apartamento, mas eles acreditam que o vizinho ia pela escada todas as noites depois que a esposa dormia.
-- Todas as noites? O senhor viu minha pele, dr. Salomão? Parece a pele de alguém que faz sexo todas as noites?
-- Bom, não posso dar minha opinião sobre isso.E tem também uma tal de Vivian que estava na festa da sua prima e deu um depoimento voluntário dizendo que você estava super nervosa e não parava de olhar o relógio.E ainda tem um colega de infância dizendo que você jogava bem basquete no colégio
-- E o que tem o cu a ver com a cesta?
-- Dona Maria Amélia, o que é isso? Eu sei lá, acho que para dizer quais eram as suas chances de acertar. E a imprensa está impiedosa.
-- Mas eles não aprenderam nada?
-- Nossa senhora, agora que acham que tinha razão naquele caso escabroso de alguns anos atrás, você sabe qual é, estão enlouquecidos.
-- Quer dizer que nunca vão aprender?
-- Olha, nós continuamos alegando que foi um acidente.
Maria Amélia foi obrigada a aceitar uma licença compulsória no hospital onde trabalhava como chefe da enfermagem na pediatria. A conquista desse cargo meses antes lhe valeu outro depoimento, do que foi preterido na vaga e disse que ela costumava ser violenta com os pacientes.
-- Na Ana Maria Braga?
-- Você veja só como são as pessoas. Eu não esperava isso da sua prima Maria Helena. E espero que ela não conte dos pontos que levou na testa quando você a empurrou na parede daquela vez que brigaram.
-- Mãe, eu tinha sete anos.
-- Que seja, filha. Mas agora com essa história da samambaia.
-- AVENCA, MÃE, AVENCA.
-- Você está ficando meio descontrolada, filha, é melhor tomar um chá de erva cidreira.
Ela achava que as coisas não podiam piorar. Ledo engano.
-- Esquema de corrupção no governo, Heitor?
-- É, a polícia só foi fazer algumas perguntas para o cara que trabalhava com seu vizinho. E ele entregou tudo. O cara parece que comandava uma maracutaia grande no Ministério dos Transportes, tem conta no exterior e tudo.
-- E morava no meu prédio?
-- Vai saber. E o mesmo cara disse que viu você algumas vezes com ele no escritório.
-- Meu Deus, onde fica esse escritório?
-- Parece que é em uma casa em frente aquele viveiro do lado do Ibirapuera, sabe qual é?
-- Ai não, viveiro não, é demais.
Por ter diploma universitário, Maria Amélia teve direito a uma cela especial quando recebeu a ordem de prisão preventiva. Ela descobriu que especial mesmo era a cela do lado, da Stefanie, namorada de um traficante, com direito a TV de LCD. A Polícia Federal, desconfiada de que o ataque da samambaia pode ter sido uma queima de arquivo, queria nomes dos envolvidos.
-- Dona Maria Amélia, a vizinha do lado disse que escutava quase todas as noites a voz de um homem rouco, que falava como se estivesse bêbado. Ela não conseguia entender o que diziam porque parece que ele não era brasileiro e vocês sempre colocavam música de fundo para disfarçar. A senhora pode nos dizer quem era esse contato?
-- Homem rouco? De noite? Meu Deus, era o Tom Waits.
-- A senhora pode nos dizer onde podemos achá-lo?
A imprensa deitou e rolou com os desdobramentos políticos do caso da assassina da samambaia e até o cargo do presidente da República ficou ameaçado.
-- Sabe garota, eu não entendo a cagada que você fez com esse presidente que é dos nossos. Se ainda fosse aquele barbudinho de antes você podia jogar a samambaia que quisesse.
-- Avenca, Stefanie, avenca.
Com todo o escândalo e sem dar nomes, o caso de Maria Amélia foi julgado sem dó nem piedade.
Era a quinta vez que Heitor a visitava no presídio feminino e a encontrava com o uniforme todo sujo enquanto os das demais presidiárias estavam sempre limpos. Foi reclamar com a direção.
-- Mas nós damos um limpo para ela. Só que ela joga tudo que encontra na frente nele, até pó de tijolo ela tira da parede para tingir o uniforme.
-- Porque ela faria isso?
-- As colegas dizem que é porque o uniforme é verde. Parece que ela odeia verde.
VerdeEu, como não odeio verde, não fiquei nem um pouco tristinha hoje. Mesmo com todo amor que tenho por vários são paulinos, sorry. Agora, força na Libertadores.
Troller Serviço blog de utilidade pública diz que nosso amigo Ricardo Soares teve seu Troller roubado. A placa é BEZ 2255 e o carro é verde escuro.Não custa prestar mais atenção nos Trollers na rua, quem sabe alguém o encontra. Pode ligar para o 190 e, de preferência, dar um toque no blog dele que é o
Todo Prosa.
ProcuradoNada melhor do que o próprio Tom Waits, ainda procurado pela PF, cantando Downtown Train, do excelente Rain Dogs que eu tenho em vinil.